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Fazendas se Tornam Hotéis
Fazendas se Tornam Hotéis

07 de março de 2001

Fazendas se tornam hotéis para enfrentar déficit e criam opção de lazer no campo


Fotos à direita: A Fazenda Hotel Ponte Alta, um de seus quartos preparados para receber hóspedes e a sede da São Policarpo: duas alternativas do antigo Brasil rural, no Rio de Janeiro



O empresário Márcio Vecchi,dono da Fazenda Cainã,em Balsa Nova, no interior do Paraná, complementa a produção da propriedade cultivando turistas. "Estou colhendo mais de cinqüenta safras por ano",festeja Vecchi, um entre centenas de fazendeiros de todo o país a entrar na onda do turismo rural. Nos últimos anos, o ramo das fazendas-hotéis se sofisticou, ganhou profissionalismo, foi descoberto pelos viajantes mais exigentes e se tornou uma alternativa de sobrevivência para estabelecimentos que padeciam entre as instabilidades do clima e as do crédito. Vecchi, por exemplo, investiu 800.000 reais para dotar a Cainã de uma estrutura hoteleira, inventou atrações como as cavalgadas noturnas e terminou o ano passado faturando dez vezes mais do que antes obtinha com a criação de cavalos e a exploração agrícola.

Quem mais ganha com esse negócio é o turista. Em vez dos cenários de plástico dos mega-hotéis construídos no campo que se apelidam de hotéis-fazendas, o que se encontra nessas propriedades adaptadas para receber hóspedes é um casamento entre aconchego e rusticidade. "Dentro do quarto, o cliente exige conforto", afirma o catarinense Laélio Ávila, dono da Fazenda do Barreiro, em Lages, Santa Catarina, uma das primeiras a aderir ao ramo, há catorze anos. Lá, o hóspede pode pescar, andar a cavalo ou mesmo se envolver na lida com os animais. Mas no apartamento dispõe de frigobar, televisão, sistema de calefação e até hidromassagem para se recuperar das atividades físicas.


No Rio de Janeiro, o passeio inclui uma incursão pelo Brasil antigo. Propriedades que viveram seu auge econômico no ciclo do café, no século XIX, atualmente fazem parte de um concorrido circuito turístico. A Ponte Alta, em Barra do Piraí, a 120 quilômetros da capital, é uma delas. Ali, os hóspedes ocupam a antiga senzala, que ganhou mobília de época. Toalhas e lençóis bordados, objetos e livros antigos recriam o ambiente aristocrático. Uma atração especial do local é um sarau histórico, que resgata o clima da época dos barões do café. "Passamos dias inesquecíveis, em contato com a natureza e com a história", diz a chefe de cozinha Ciça Roco Py, que se hospedou na Ponte Alta com a família.

Fazendas que pareciam condenadas à penúria redescobrem a prosperidade com a atividade turística. Durante 25 anos, a Boa Esperança, no município mineiro de Florestal, produziu apenas leite, milho e feijão. Rendia o suficiente para pagar as contas dos donos, Francisco e Suzana Faria - mas num ritmo que apontava para o prejuízo. Em 1994, o casal reformou a sede e preparou uma programação de estilo sertanejo para os visitantes. No ano passado, a Boa Esperança recebeu mais de 5.000 hóspedes e faturou 500.000 reais. "O turismo virou nossa maior fonte de renda", diz Suzana.

Como a Boa Esperança, há cerca de 5.000 outras propriedades rurais desenvolvendo atividades turísticas no Brasil, de hotéis a museus, de restaurantes a pesqueiros. Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Turismo Rural (Abraturr) revela que mais de 10 milhões de pessoas freqüentaram esses estabelecimentos no ano passado, por um ou mais dias. Essa multidão irrigou a economia do interior brasileiro com 1 bilhão de reais, gerando 70.000 empregos e contribuindo consideravelmente para diminuir o êxodo rural. Com 600 reais, uma família de quatro pessoas se hospeda de sexta a domingo numa fazenda-hotel, com direito a quatro refeições por dia e várias atividades. "Famílias inteiras que migrariam para as cidades por falta de trabalho ganham novas oportunidades e até se qualificam profissionalmente com as vagas criadas nesses empreendimentos", diz Renato Bravo, presidente da Abraturr.



Nas fotos abaixo: combinação do rústico com o conforto: cozinha com o tradicional fogo de chão e sala de estar com o mobiliário de época na Fazenda Barreiro, em Santa Catarina