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A Eterna Capital
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03 de maio de 2000

Buenos Aires passa por uma renovação frenética e continua atraindo turistas

O interior do Village Recoleta: um shopping luxuoso revigorou o bairro tradicional


Cassinos e parques temáticos recém-inaugurados, roteiros gastronômicos inéditos, centros de entretenimento e dezenas de novos hotéis. Buenos Aires está investindo pesado para se manter como a cidade da América do Sul mais visitada por turistas estrangeiros. Foram 4 milhões em 1999. No mesmo período, Salvador foi visitada por 800.000 estrangeiros. Pessimistas como são, os portenhos achavam que haveria grande queda nas visitas à capital da Argentina, um baque similar ao ocorrido em Miami, que viu fugir metade dos visitantes latinos. Pois bem. Em Buenos Aires, o tombo foi muito menor que o esperado. O fluxo de turistas caiu apenas 20%. Em 2000, a previsão é de que o movimento já será quase igual ao de 1998, antes da desvalorização do real. Dos 600.000 brasileiros que visitaram a Argentina, mais de 500.000 passearam em Buenos Aires. Em 1999, com desvalorização e tudo, a capital argentina bateu Miami e é a segunda cidade no exterior visitada por turistas do Brasil, perdendo apenas para Nova York.

Não era bem esse o sentimento no início do ano passado, logo depois da queda do real diante do dólar. "Tanto o Carnaval quanto a Semana Santa de 1999 foram um desastre", lembra Roberto Rodriguez, gerente da agência Agaxtur, empresa que há 47 anos leva turistas brasileiros a Buenos Aires e onde ele trabalha faz 25 anos. "Tivemos de reduzir em até 30% o preço dos pacotes. Deu resultado. O Carnaval foi ótimo, com o mesmo número de turistas de 1998, e na Semana Santa os pacotes se esgotaram." O secretário de Turismo da prefeitura local, Narciso Muñiz, faz coro. "Poucas horas de vôo e uma tarifa aérea bem mais baixa são os trunfos de Buenos Aires."

Quem ficou um ano ou pouco mais sem viajar à capital argentina vai reencontrar uma cidade metamorfoseada. O Abasto, gigantesco shopping de seis pavimentos com 200 lojas, sete lojas-âncora e doze cinemas, ocupa o espaço do antigo mercado do início do século onde cantou Carlos Gardel. Ali está agora uma das melhores novidades para quem visita a cidade com crianças, o Museo de los Niños, um parque temático de 4.000 metros quadrados e três pavimentos que recria um local onde elas mandam em tudo. Aberta em abril do ano passado, a cidade das crianças tem porto, alfândega, avenidas, metrô, supermercado, estúdios de TV, rádio e hospital, fábricas e correio adaptados para ensinar e divertir os pequenos visitantes. Na estação de tratamento de água, por exemplo, a garotada escorrega pelos imensos encanamentos como se fosse a própria água. Só no primeiro ano, a diversão atraiu 400.000 crianças.

Las Cañitas, um pequeno bairro residencial perto do campo de pólo de Palermo, é a mais nova atração noturna. Em apenas dois anos, surgiram trinta restaurantes, bares e pubs badaladíssimos, freqüentados pelos filhos do presidente Fernando de la Rúa e por modelos, publicitários, gente de TV, do rock e do futebol. "Las Cañitas é um reduto para quem é fashion, moderno ou quer ver e ser visto. É o lugar da moda para gente bonita", resume Javier Lúquez, o mais festejado promoter portenho de Buenos Aires. "Puerto Madero é muito artificial. Aqui é uma espécie de SoHo portenho", arrisca Fabián Quintiero, de 33 anos, ex-tecladista do roqueiro mais popular do país, Charly Garcia, e atualmente no grupo de rock Ratones Paranoicos. Quintiero criou o pioneiro Soul Café e hoje já possui, com seu pai, quatro restaurantes e o bar-discoteca Voodoo Lounge. Puerto Madero, o tradicional beira-rio portenho, para não ficar para trás, contra-atacou. Em março, foi inaugurado ali um novo cinco-estrelas, da cadeia Hilton. Em outubro do ano passado começou a operar o navio-cassino, comandado por um grupo espanhol.

A mais visível mudança na paisagem urbana de Buenos Aires, o Village Recoleta é um investimento de quase 100 milhões de dólares que já recebeu 1,5 milhão de visitantes desde que foi inaugurado, há nove meses. O super-shopping center com estética "à Miami" está dando vida nova, com o perdão da expressão, ao bairro antes famoso pelo cemitério onde estão enterrados o escritor Adolfo Bioy Casares e o corpo embalsamado da lendária primeira-dama Evita Perón. Buenos Aires ganhou também recentemente o Tierra Santa, um parque temático que pretende recriar a Jerusalém da época de Cristo. São 560 figuras, entre soldados romanos, apóstolos, pastores hebreus e um Cristo de 14 metros de altura, e um presépio gigante com uma cúpula de 18 metros de diâmetro, instalados em um parque de 70.000 metros quadrados. O ambiente não é de fé. Na verdade, é quase cômico quando, antes de cada espetáculo dos canhões de laser, os alto-falantes anunciam: "Em cinco minutos, a ressurreição de Cristo".

A cidade continua cara. Todos os preços são em dólar. Uma Coca-Cola no balcão custa 3 dólares! Na soma geral dos gastos, no entanto, viajar a Buenos Aires ainda sai mais em conta do que levar a família à Europa ou aos Estados Unidos. "Estava pensando em ir para Nova York. Desisti. Pelo mesmo preço consegui um pacote argentino para duas pessoas", conta a comerciante paulistana Maria Cristina Guimarães, que, com outras três amigas, passou um fim de semana em Buenos Aires. "O pacote ficou em uns 400 dólares por quatro dias", diz a dona-de-casa Maria Helena dos Santos, que visitou a capital argentina pela primeira vez e encontrou ali uma vantagem adicional: "As roupas de couro e lã saem mais barato que nas lojas de importados de São Paulo".

Não foi por acaso que o turismo se tornou o grande negócio da orgulhosa capital do Rio da Prata. Por um lado, a liberalização da economia e o dinheiro das privatizações da década passada fizeram-lhe muito bem. Muito dos recursos que entraram com a venda do patrimônio estatal foi utilizado nas obras de modernização da cidade, que vinha se desmanchando em um processo de decadência aparentemente irreversível. Por outro, descobriu-se que os visitantes se tinham tornado uma fonte de receitas vital para uma economia cuja moeda é atrelada ao dólar. Em comparação com as estatísticas de dez anos atrás, a Argentina recebe agora quase o dobro de turistas estrangeiros. Foram 2,7 milhões em 1990. No ano passado, o país atraiu 5 milhões de turistas. Uma dúzia de hotéis cinco-estrelas surgiu ou foi ampliada nessa década. Só em 2000, serão inaugurados vinte hotéis de luxo. Boa parte do empuxo financeiro dessa renovação saiu do bolso dos turistas brasileiros. Em 1991, cerca de 200.000 brasileiros estiveram em Buenos Aires. No ano passado, esse número chegou a 600.000.