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Depois do Longo Sono
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29 de novembro de 2000

Belém começa a despertar de 100 anos de decadência com a reforma de locais
históricos

A Estação das Docas transformou galpões abandonados em galeria envidraçada:
de local perigoso a ponto de badalação


Na virada do século XIX para o XX, morar em Belém do Pará era um luxo. Os homens da elite, sustentados pela riqueza da borracha, usavam fraque, cartola e bengala. Suas esposas desafiavam o sol amazônico em vestidos longos de seda, luvas e chapéus. A moda eram os cafés, onde havia reuniões para discutir política e literatura francesa. No Theatro da Paz, companhias européias encenavam óperas que não chegavam ao sul do país. O Cine Olímpia, com seu glamouroso saguão de espera, era outro ponto de encontro. As sessões noturnas de sexta-feira tinham uma platéia especial: as prostitutas de luxo, francesas ou espanholas, que desfilavam jóias e vestidos bancados por seus amantes, os coronéis da borracha. A queda foi brutal. Praga nos seringais, concorrência das plantações asiáticas, invenção da borracha sintética, tudo contribuiu. Belém definhou na decadência. Agora, quase 100 anos depois, construções erguidas durante o auge do ciclo da borracha, entre 1870 e 1912, estão sendo restauradas e, no processo, apontam para um despertar da cidade. Nos últimos seis anos, o governo estadual investiu 30 milhões de reais para recuperar prédios e locais como a orla da Baía do Guajará. A prefeitura recuperou alguns dos luxuosos casarões do início do século, como o Palacete Bolonha, e iniciou a reforma do Mercado Ver-o-Peso, cartão-postal da cidade.

No mês passado, o projeto de recuperação ganhou novo impulso com o anúncio pelo Ministério da Cultura de que Belém é uma das vinte cidades que podem concorrer a parte de uma verba de 200 milhões de dólares, na segunda fase do programa Monumenta, uma parceria do ministério com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Se esse dinheiro vier, a intenção é restaurar todo o centro histórico. A idéia da recuperação urbanística não é engessar a glória do passado - de resto irreproduzível, tal como o título de Francesinha do Norte, que Belém ostentava há 100 anos. Cidades que revertem a onda da degradação costumam colher frutos no presente, tanto na forma de dinheiro que entra quanto no campo mais impalpável da psicologia de seus habitantes. "Recuperar o patrimônio, além de gerar renda atraindo turistas, representa um ganho fantástico de auto-estima para os moradores", afirma o arquiteto carioca Alex Nicolaeff, membro-fundador do Icomos, instituição que reúne especialistas no assunto de várias partes do mundo. O primeiro dado, pelo menos, é confirmado pelos números: o turismo cresceu 7,7% em 1998 e quase 10% em 1999, numa curva ascendente que coincide com a inauguração de espaços restaurados, como o Parque da Residência e o Museu de Arte Sacra.

Galpões ingleses

Belém continua com problemas urbanos graves. Menos de 8% da população é atendida por rede de esgoto. Três em cada dez casas não têm água encanada. O transporte coletivo e a coleta de lixo são precários. Sem as reformas, esses problemas continuariam os mesmos e a cidade não ganharia um sopro de renovação. A área portuária onde fica o Ver-o-Peso era um pedaço mal iluminado e perigoso da cidade. Os armazéns de carga impediam a visão da bela Baía do Guajará. Em maio, foi inaugurada no local a Estação das Docas, um centro de lazer que se estende por 500 metros da orla, com 33 pontos comerciais: lojas, restaurantes, bares e um teatro para 400 pessoas. Na montagem da Estação das Docas foi aproveitada a estrutura de quatro galpões trazidos da Inglaterra no início do século e que nos últimos anos serviam de depósito de entulhos. A reforma manteve o pé-direito altíssimo e os arcos tubulares dos galpões, mas transformou-os numa grande galeria envidraçada à beira do rio, como uma versão reduzida de Puerto Madero, na Argentina. A obra custou 19 milhões de reais - três vezes o valor previsto -, mas a área do porto ficou mais bonita, virou ponto de badalação e já é usada como chamariz de pacotes turísticos.

O trabalho feito no Parque da Residência mistura os conceitos de restauração de época e readaptação do espaço. O palacete, que fica dentro do parque e servia de residência oficial aos governadores, passou por uma recuperação minuciosa. O mobiliário original e os belíssimos lustres de cristal do andar térreo foram mantidos. Ao lado do casarão, há um coreto da época da borracha, agora tinindo com a pintura lilás. Um vagão de luxo que levava o governador Magalhães Barata em viagens ao longo da extinta Estrada de Ferro Belém-Bragança agora é uma sorveteria. No mesmo parque, um galpão de ferro foi reformado e transformado no Teatro Estação Gasômetro, com auditório, cafeteria, feira gastronômica e loja de presentes.


Foto abaixo, à direita: Palacete Bolonha, símbolo do auge da borracha: mais auto-estima aos moradores
Foto abaixo, à esquerda: Galpão de ferro reformado vira teatro no parque: novo uso