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15 de julho de 1998

Alemanha investirá até o ano 2000 110 bilhões de dólares para transformar a
capital na metrópole do século XXI



Potsdamer Platz no tempo do Muro Berlim é o sonho de todo urbanista: uma cidade centenária que precisava ser reinventada e contava com espaço vago e dinheiro suficientes para bancar a reforma de alto a baixo. Quase nove anos atrás, quando o Muro veio abaixo, o centro histórico da nova capital alemã era um enorme descampado. A Potsdamer Platz, que nos anos 30 era o cruzamento mais movimentado da Europa, tinha sido pulverizado pelos bombardeios aliados na II Guerra Mundial e, durante três décadas, cortado ao meio pelo Muro, fora terra de ninguém entre as duas Alemanhas. Uma cirurgia urbana de tamanho poucas vezes igualado transfigurou essa área no maior canteiro de obras da Europa. Dois megaconglomerados industriais, a Sony e a Daimler-Benz, junto com outras companhias, estão erguendo um complexo de torres de escritórios, apartamentos residenciais e shopping centers alguns metros acima do que será uma gigantesca estação ferroviária subterrânea. A poucas centenas de metros toma forma um novo distrito governamental, incluindo a reforma do célebre edifício do Reichstag (que ganhou uma cúpula de vidro para simbolizar a transparência da democracia alemã), para receber o governo federal, que tem o compromisso de se instalar em Berlim antes da virada do século.

Se a Alemanha decidiu remodelar tudo de uma só vez e prometeu entregar a obra pronta no curto espaço de dez anos foi porque vivia, logo após a reunificação, um duplo desafio: costurar a unidade da cidade dividida em duas e criar um símbolo de um país novo e velho ao mesmo tempo. Como uma cidade pode ser moldada para representar a essência do caráter nacional? Não há respostas fáceis para tal pergunta, mas Berlim tem na própria história todos os exemplos a ser evitados. As grandes reformas urbanísticas na cidade nos últimos 200 anos - dos reis prussianos ao arquiteto amador Adolf Hitler - tiveram como objetivo reforçar os tons imperiais. A Berlim que está nascendo nas pranchetas dos urbanistas atuais é de outro matiz. Os alemães querem criar a grande metrópole do século XXI, uma cidade que seja a porta aberta aos bons negócios com os países da Europa Central e Oriental.

Volta às origens - A originalidade da reforma berlinense foi não ceder ao apelo do hipermoderno que fascina os Estados Unidos e o Japão - os dois únicos países mais ricos que a Alemanha. "Decidiu-se por uma cidade tradicional, com praça central, ruas onde se misturem comércio, lazer e residências", explica o arquiteto Peter Kalandides, da prefeitura de Berlim. Para que a reforma seguisse uma linguagem única, ficou estabelecido que, nas fachadas, predomine o uso de pedra e tijolos no lugar de aço e vidro. Também se impediu a construção de arranha-céus. Temendo que a região central viesse a ficar deserta fora do horário comercial, a prefeitura exigiu que 20% da área construída seja destinada a apartamentos residenciais. O projeto inclui também uma mistura de cinemas, teatros, restaurantes, um hotel e shopping centers.

É a mistura ideal para restabelecer o vivo burburinho do passado? "Ninguém sabe se vai funcionar", admite a urbanista Cornelia Poczka, do Departamento de Desenvolvimento e Planejamento do Município, o órgão que dá ou não autorização para as obras. "Infelizmente, um bairro não é um bolo, que se faz com medidas exatas de ingredientes." De fato, muitas áreas deterioradas do velho centro, o Mitte, ressuscitaram por conta própria. É o caso do Scheunenviertel, que tinha sido um bairro judeu até o nazismo e sobreviveu com a arquitetura anterior à II Guerra. Tornou-se o SoHo berlinense, com várias dezenas de galerias de arte, estúdios e restaurantes numa área de seis quarteirões. Quando percebeu o processo de revitalização espontânea, o governo completou o serviço financiando restaurações e novos negócios.

Desemprego - A história, contudo, não poupa os berlinenses de novos dilemas. A nova Berlim está tendo dificuldade em espalhar os benefícios da reconstrução entre seus cidadãos comuns. Apesar dos 110 bilhões de dólares que devem ser gastos nas obras até o ano 2000, o desemprego na cidade é de 15%, bem acima da média nacional de 10%. Na construção civil, por ironia, chega a 40%, pois as empreiteiras preferem operários estrangeiros, cujos salários chegam a ser a metade dos pagos aos trabalhadores sindicalizados alemães. Sem a menor esperança de se tornar um centro industrial, Berlim está se preparando para ser a primeira cidade alemã com a economia inteiramente baseada em serviços e alta tecnologia. Localizada bem próximo à fronteira polonesa, Berlim não vê a hora em que estará vendendo engenharia de trânsito ou biotecnologia em Varsóvia, Moscou ou Praga - mas é preciso ter paciência, já que ninguém espe-ra grandes avanços econômicos antes do próximo século.

Uma ironia é que o canteiro de obras instalado bem no meio do caminho está, por enquanto, criando um novo obstáculo à integração da cidade. Só um pequeno trecho do Muro foi conservado para a História, mas emocionalmente ele está bem presente no cotidiano berlinense. É o "die Mauer im Kopf", o muro na cabeça das pessoas, a barreira psicológica que substituiu o muro real. Apesar de a maior parte das grandes obras estar ocorrendo no que foi a porção comunista de Berlim, muitos berlinenses-orientais consideram que se está destruindo com muita leviandade a herança da RDA. Ninguém acha ruim que o feio bloco de apartamentos pré-fabricados em torno da Alexander Platz seja substituído por edifícios modernos do centro de Berlim. Mas querem conservar os 135 metros de torre plantados bem no meio da praça.



Há também agitação em torno do Palácio do Povo, um prédio quadrado espelhado em dourado, em que se reunia o Parlamento da Alemanha Oriental. Os comunistas construíram o prédio nos escombros do antigo palácio real dos Hohenzollern, destroçado por bombardeios. A nova Alemanha interditou o edifício a pretexto de que está contaminado por asbesto e iniciou estudos para reconstruir o palácio original. Não se tocou o projeto imediatamente porque faltou dinheiro. Hoje ninguém ousa pôr abaixo o monstrengo, pois cresce entre os berlinenses-orientais um movimento por sua preservação como testemunho histórico. Estaria na mesma categoria do sinistro prédio do Ministério da Aeronáutica nazista, o único a escapar aos bombardeios. Está no momento sendo reformado para abrigar o Ministério das Finanças. Berlim é uma cidade que está sempre aprendendo com o próprio passado.



Livre do Muro e restaurado, o centro de Berlim está na moda: galerias de arte e bares