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Bonito e sem Vida
Bonito e sem Vida


16 de dezembro de 1998


Reforma devolve beleza aos prédios do Recife Antigo,
mas o bairro continua sem animação


Fachadas da Rua Bom Jesus, no Recife


A recuperação dos centros históricos é uma das melhores novidades nas cidades brasileiras nos últimos anos. Algumas, no entanto, têm sido mais bem-sucedidas que outras nessa tarefa. Um caso exemplar de sucesso é o Pelourinho, em Salvador. Sujo e perigoso nos tempos em que esteve ao abandono, o bairro que abriga os casarões e monumentos históricos mais importantes da capital baiana passou por uma reforma geral a partir de 1992. De lá para cá, 500 de suas 800 casas foram restauradas. Hoje, concentram-se no Pelourinho alguns dos bares, restaurantes e danceterias mais badalados da cidade. Ficam lá, também, as sedes de escolas de percussão como a do Olodum, museus importantes, lojas de roupas e artesanato. Resultado: convertido em atração turística, o bairro pulsa dia e noite. Um caso diferente é o do Recife Antigo, o bairro onde foi fundada a capital pernambucana. Ali, a restauração devolveu a beleza original às fachadas dos prédios históricos, mas ainda não conseguiu incorporá-lo plenamente à rotina da cidade. A reforma, que custou 2,7 milhões de reais à prefeitura, deixou as ruas limpas e bem conservadas, mas elas ficam desertas na maior parte do tempo. Só à noite, quando alguns bares abrem as portas, é que há certa animação. Os turistas que percorrem a região aos sábados e domingos durante o dia têm a sensação de estar dentro de um parque temático: tudo é muito bonito, mas artificial e sem vida.

A comparação com o Pelourinho é útil para entender por que a reforma do Recife Antigo ainda não pegou. No bairro de Salvador, todo dia é dia de festa. Ali, há música e espetáculos o tempo todo. Nas noites de terça-feira, os ensaios ao ar livre do Olodum atraem milhares de pessoas, incluindo legiões de turistas estrangeiros. No bairro do Recife, não há nada disso. Shows e espetáculos são raros. Neste ano, havia apenas cinco eventos programados pela prefeitura. Outra diferença é o tipo de ocupação do centro histórico nas duas capitais. No Pelourinho, há agências de correio, farmácias, padarias, restaurantes, escolas e outros serviços de uma cidade ativa que ajudam a mantê-lo movimentado o dia inteiro. No Recife Antigo, a atividade é voltada quase exclusivamente para a vida noturna. Durante o dia quase nada funciona lá. Assim, no horário comercial as ruas são ocupadas apenas por pedintes e raros visitantes ou transeuntes apressados. "Isto aqui é melancólico", diz a economista Renata Lourenço, de 29 anos. "É um belo cenário desperdiçado."

Aluga-se ou vende-se - O que acontece com o Recife Antigo é uma prova de que não basta reformar os edifícios para recriar um pólo de animação na cidade. No aspecto arquitetônico, o trabalho foi bem-feito. Antes da reforma, o bairro era reduto de prostíbulos freqüentados por marinheiros e boêmios. A restauração das fachadas começou pela Rua Bom Jesus. Ficou tão bonita que logo surgiram cinqüenta bares nas imediações. Eles passaram a receber um grande número de visitantes, entusiasmados com a possibilidade de freqüentar um lugar renovado e bem policiado pela guarda municipal. A animação inicial não durou muito. O motivo é que o projeto de recuperação do bairro limita demais as atividades no local. Lá só funcionam bares, restaurantes e escritórios restritos a algumas atividades, como arquitetura e empresas de assessoria. Qualquer outro tipo de serviço - como padarias, escolas, bancos e correios - encontram dificuldades de se instalar ali. O excesso de controle impediu que o bairro restaurado se incorporasse plenamente à vida da cidade. Com o tempo, o movimento dos bares caiu e muitos empresários aue tinham aderido ao projeto da prefeitura bateram em retirada. "O que acabou com o Recife Antigo foi a falta de novidades", opina José Antônio de Souza Leão Filho, ex-dono da primeira casa de shows do lugar após a reforma, a Moritzstadt. Localizada num casarão da Rua do Apolo com capacidade para 1.500 pessoas, a Moritzstadt fechou em 1996 após um ano de funcionamento. Hoje, é nessa rua que o Recife Antigo parece mais abandonado. Em apenas dois anos, a maioria de seus bares fechou. Placas de aluga-se ou vende-se são vistas por todo lado.

Hoje, a prefeitura busca uma saída para o Recife Antigo. Além de permitir novas atividades no bairro, como um pólo de informática, uma lei isenta de IPTU as empresas que se instalarem ali. "Queremos garantir um fluxo permanente de pessoas", diz Vera Lúcia Dias, coordenadora do Escritório de Revitalização do Bairro do Recife. Caso consiga superar a atual fase de abandono, o Recife Antigo poderá, assim como o Pelourinho, servir de exemplo para outras cidades que também têm projetos sérios de revitalização de seus centros históricos, caso de João Pessoa, São Luís e Natal. Por enquanto, sem um trabalho que torne mais natural a ocupação do Recife Antigo, é provável que os turistas e moradores da capital pernambucana continuem preferindo visitar as barraquinhas de artesanato e tapioca em Olinda, a 6 quilômetros dali, nas suas horas de lazer.