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O que Florianópolis tem
A Praia da Joaquina tem as melhores ondas para a prática do surfe no país
Cem praias. Apenas uma imprópria para banho no último verão
A Lagoa da Conceição é ideal para a prática de esportes náuticos
Trânsito bom. Pequenos congestionamentos não roubam mais de quinze minutos do motorista
Comprar é lei. A cidade fica em segundo lugar em consumo por habitante no país
Serviços públicos exemplares
Alfabetização mais alta entre as capitais
Índices de criminalidade comparáveis aos da Europa
Boas escolas, aluguel e alimentação pela metade do preço de São Paulo
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Um fenômeno migratório extraordinário vem ocorrendo na Região Sul. Florianópolis, uma das capitais menos populosas e industriais do país, está recebendo um número recorde de moradores de outras cidades atraídos por uma aspiração que se explica pela difusa idéia da "qualidade de vida". Ao contrário de outras migrações deste século, como a dos nordestinos para a cidade de São Paulo nos anos 50 e a de funcionários públicos para Brasília nos anos 60, as famílias que estão mudando para Florianópolis não correm atrás de emprego ou de uma chance de prosperidade rápida. Querem uma vida tranqüila, sem o medo de assalto, o stress das horas de engarrafamento e a preocupação com o ambiente em que os filhos estão crescendo. Não são indicadores fáceis de medir, mas Florianópolis é um oásis para quem vem de uma metrópole conturbada. Com exatas 100 praias, algumas semi-selvagens, a capital de Santa Catarina apresenta padrão de vida de dar inveja. São menos de 300.000 habitantes, criminalidade tão baixa quanto a das cidades européias, o menor índice de analfabetismo entre as capitais, boas escolas, uma universidade federal destacada e dias de sol de padrão nordestino.
Essa profusão de atributos tem atraído um tipo especial de migrante: gente de classe média e classe média alta que corre atrás de um emprego como todo mundo, mas muitas vezes dá mais importância à tal "qualidade de vida" do que a um salário alto. A fonoaudióloga Maria Regina Cabral Vilela, 38 anos, conheceu Florianópolis nos anos 80. Em 1991, depois de três anos na Inglaterra, ela passava férias na cidade quando encontrou uma clínica para trabalhar. Desistiu de um estágio na França e de um emprego para ganhar bem em São Paulo. Hoje, ela mora em uma casa na Lagoa da Conceição, bairro pacato a 12 quilômetros do centro, e reserva seus fins de tarde para pescar com o filho Thales, que aos 5 anos maneja bem uma vara de pesca. Os frutos da pescaria são limpos pelo garoto e vão para a mesa do jantar. "Como ele poderia ter uma vida assim em São Paulo?", pergunta.
No único índice que tenta aferir a qualidade de vida nas cidades brasileiras, Florianópolis está a léguas de distância da média nacional. A tabela é chamada de índice de desenvolvimento humano, IDH, e foi preparada com critérios da Organização das Nações Unidas levando em conta dados de educação, renda e expectativa de vida. A capital catarinense foi considerada a segunda melhor cidade para viver. A sua nota foi 0,833, numa escala com máximo de 1. Perdeu por pouco para a pequena Feliz, um município pacato de 15.000 habitantes na Serra Gaúcha. Há outros levantamentos que comprovam a boa vida catarinense. Uma pesquisa recente da agência Target mostra que o público de lá é o segundo maior mercado consumidor per capita do país. Cada morador de Florianópolis gasta em média 5.310 dólares por ano em compras em supermercados e lojas - 900 dólares a mais que os paulistanos em seus trinta shoppings.
Padrão europeu
O alto poder de consumo é indicativo de uma cidade onde as pessoas ganham bem. Dois de cada três moradores estão na classe A, B ou C. Florianópolis tem a segunda maior concentração de veículos do país, com um carro para cada dois habitantes, a mesma relação encontrada nos Estados Unidos. Proporcionalmente, há cinco vezes mais telefones celulares na ilha que a média nacional. E, para dar inveja à classe média de outras capitais, a cidade é tranqüila. No ano passado, ocorreram 29 homicídios em toda a região metropolitana. É metade do que acontece em um fim de semana em São Paulo. Isso dá uma média de cinco assassinatos para cada grupo de 100.000 habitantes - padrão europeu. Despreocupados, os moradores dirigem com os vidros abertos e os pedestres caminham sossegadamente durante a noite na Avenida Beira-Mar.
O engenheiro José Ari Sundfeld, casado e pai de três filhos, deixou São Paulo em 1995 em direção à ilha depois que a esposa, Cecília, foi assaltada quatro vezes em um ano. Cansado da violência e de perder três horas por dia para ir de casa até o trabalho, ele vendeu sua empresa de comércio exterior e montou uma franquia da rede de lanchonetes McDonald's. O casal trabalha dez horas por dia, mas, pela facilidade de trânsito, tem tempo para caminhar todas as manhãs e fazer ginástica. Os três filhos praticam equitação e fazem passeios de barco nos fins de semana. "Custa muito morar em São Paulo", explica Sundfeld. "Aqui eu não gasto uma fortuna em alarmes, carro blindado e seguranças." É um pensamento comum em quem decide abandonar a metrópole. "As pessoas estão buscando cidades que aliem os recursos das metrópoles a relações sociais mais próximas, típicas de lugares menores", explica o professor José Guilherme Magnani, especialista em antropologia urbana da Universidade de São Paulo.
Turistas argentinos
Qualquer pessoa que muda de uma cidade para outra passa por um período normal de adaptação. É difícil escolher o bairro para morar e leva tempo até se sentir em casa. Os filhos precisam acostumar-se com a nova escola e os novos colegas. E o novo emprego vai exigir maior dedicação, diminuindo inicialmente o tempo disponível para a família. No caso de Florianópolis, a troca ganha dois ingredientes adicionais. O primeiro: em geral, os migrantes são oriundos de cidades maiores e podem, no princípio, sentir falta da agitação das metrópoles. Afinal, a cidade tem apenas sete cinemas, um teatro e dois shopping centers. A diversão noturna se resume ao fim de semana. Há centenas de restaurantes, mas nenhum é sofisticado. O segundo ingrediente: sua população triplica nos feriados e durante o verão, muito em função da vinda de uruguaios e argentinos. Para a maior parte das pessoas que não moram em cidades turísticas é estranho ver Florianópolis ficar lotada em vez de esvaziar-se nos fins de semana. De quebra, quando a cidade enche, os preços sobem.
O dinheiro em Florianópolis tem um valor diferente do das grandes capitais. Embora os salários sejam menores, o custo de vida também é menor. Pode-se encontrar um apartamento de três quartos por 700 reais por mês de aluguel, metade do preço praticado em São Paulo. A mensalidade escolar também é bem menor da que se paga nas grandes cidades. E um bom jantar para dois sai por 20 reais, com direito a bebida. Esse foi um dos motivos que pesaram na decisão do coronel da reserva carioca Walter Félix, de 46 anos. Ele morou em seis capitais nos últimos trinta anos e seus quatro filhos adolescentes nasceram em três cidades diferentes. Quando foi para a reserva, no ano passado, Félix decidiu morar em Florianópolis. Construiu uma casa sem muros a cinco minutos da praia. Três vezes por semana, ele pega a bicicleta e vai jogar tênis. "Não decidi sozinho. Minha família toda se apaixonou pela cidade", diz Félix, que trabalha como consultor de segurança e inteligência para empresas. "Eu poderia ganhar mais em São Paulo ou no Rio, mas aqui tenho à disposição coisas que o dinheiro não compra."