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Vinho de Verdade
Vinho de Verdade



01 de julho de 1998


Pequenas vinícolas investem em tecnologia e melhoram a qualidade do
produto nacional

Adriano Miolo: curso no exterior para melhorar a marca de sua família



Há não muito tempo, fazer cara feia era a reação mais comum diante de um cálice de vinho brasileiro. A situação já começa a mudar. Há três anos o Brasil vem ganhando prêmios em concursos da Organização Internacional do Vinho, OIV. Desde 1995, quando o país se filiou à entidade, os vinhos nacionais já receberam 160 medalhas. Erra, no entanto, quem imagina que o sucesso recente do vinho brasileiro se deve às grandes indústrias que se instalaram no Rio Grande do Sul na década de 70. Destas, muitas não resistiram à chegada dos concorrentes estrangeiros. O atual florescimento da reputação do produto nacional é responsabilidade das pequenas vinícolas familiares da Serra Gaúcha. O número de cantinas no Estado, responsável por 9 em 10 litros produzidos no país, aumentou de 179 para 346 em dez anos. A maior parte delas é administrada pelas próprias famílias e conseguiu qualidade aliando tecnologia moderna a tradicionais métodos artesanais. "Alguns dos nossos vinhos têm hoje o mesmo nível dos argentinos e chilenos", afirma Mário Telles Junior, presidente da Associação Brasileira de Sommeliers.

O novo sabor aprimorado do vinho nacional está conquistando mesas, inclusive as oficiais. Até dois anos atrás, todo vinho servido nas recepções do Ministério das Relações Exteriores era estrangeiro. Hoje, de cada 10 litros, 8 são da Casa Valduga, uma das vinícolas do Vale dos Vinhedos, região de 100 quilômetros quadrados em Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Os Valduga produzem vinhos há 120 anos, mas alcançaram a fama quando decidiram investir em uvas finas. "Percebemos que não iríamos crescer esmagando as uvas com os pés", diz João Valduga. A vinícola passou a importar mudas, adquiriu novas máquinas e mudou a maneira de plantar. No começo, a produção caiu pela metade, mas o nível de açúcar das frutas aumentou muito. Há alguns anos, os Valduga conseguiram finalmente fazer vinhos finos de boa qualidade, ganhar medalhas internacionais e conquistar o consumidor. No ano passado, a produção chegou a 250.000 litros, quatro vezes mais do que em 1990.

Na busca por qualidade, as vinícolas passaram a investir na melhoria também da mão-de-obra que empregam. Dos 250 enólogos que trabalham na indústria vinícola brasileira, apenas dez têm diploma universitário. Isso está mudando. O Rio Grande do Sul comemora neste mês a formação da primeira turma de enólogos numa faculdade brasileira. Eles são da Escola Agrotécnica Juscelino Kubitschek, de Bento Gonçalves. Antes, sem conhecimento para transformar a uva em bom vinho, muitos produtores apenas vendiam suas safras para as grandes vinícolas. Quem quebrou esse ciclo lucrou. A família Miolo mandou um filho para estudar no exterior. Em 1995, quando Adriano Miolo voltou de uma temporada de estudos em Mendoza, na Argentina, a família passou a fabricar vinho com marca própria. O faturamento bateu na casa dos 500.000 dólares logo no primeiro ano. Em 1997, esse valor triplicou. Hoje, restaurantes badalados, como o francês Roanne, de São Paulo, incorporam os vinhos Miolo à sua carta. "Quem mais pede são os clientes estrangeiros", diz Virgínia Brandão, gerente do Roanne. Os vinhos finos gaúchos têm apenas uma barreira a ultrapassar, talvez a mais difícil: o preconceito contra o produto nacional - herança de uma época em que ele era mesmo muito ruim.

No Rio Grande do Sul concentra-se mais de 90% da produção vinícola do país e lá estão as melhores vinícolas brasileiras. A maior parte destas vinícolas está localizada na Serra Gaúcha região de montanha ao norte no estado, destacando-se as cidades de Bento Gonçalves, Garibaldi e Caxias do Sul, seguidas de Flores da Cunha, Farroupilha e Canela, e o restante em Erechin, no noroeste do estado; Jaguari, no sudoeste; Viamão e São Jerônimo, no centro-leste; Bagé, Don Pedrito, Pinheiro Machado e Santana do Livramento, no extremo sul.

Uma pequena parte restante dos vinhos brasileiros é proveniente de diminutas regiões vitivinícolas situadas nos estados de Minas Gerais (municípios de Andradas, Caldas, Poços de Caldas e Santa Rita de Caldas), Paraná, Pernambuco (Santa Maria da Boa Vista e Santo Antão), Santa Catarina (Urussanga) e São Paulo (Jundiaí e São Roque).

No quadro vinícola descrito para as regiões fora do Rio Grande do Sul, existe uma feliz exceção situada no Nordeste brasileiro. É o promissor Vale do rio São Francisco, especialmente na cidade de Santa Maria da Boa Vista, próxima de Petrolina e Juazeiro, na fronteira de Pernambuco e Bahia.