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Sabores do Café
Sabores do Café

14 de outubro de 1998

O consumo é alto, mas o brasileiro ainda sabe pouco sobre a bebida

Quem pensa que todo café é igual deve comparar, por exemplo, a bebida feita com o pó da marca Pilão, a mais vendida do Brasil, com o da Premium Class, da Melitta. Os dois, é claro, têm gosto, aroma e cor de café, assim como todo vinho tem gosto de vinho. Quem reparar bem perceberá que o café Pilão é mais amargo e, por ser encorpado, seu sabor permanece na boca por mais tempo.O Premium Class é pouco encorpado e tem um sabor suave. Sua característica mais marcante é o aroma acentuado. Detalhes como esses, que fazem diferença para pessoas de paladar apurado, foram até agora ignorados pelos con- sumidores e pela maioria dos fabricantes brasileiros. "As pessoas não costumavam distin- guir um café do outro", diz Valdeci Rodrigues Pontes, de São Paulo, classificador e degus- tador de café há 26 anos. "Acham que todos são iguais, o que não é verdade." Isso está mudando.

A indústria brasileira começa a dar ao café o mesmo tratamento que os franceses dispen- sam a seus vinhos. Assim como os vinhos se distinguem uns dos outros pela variedade da uva e pela região onde são produzidos, com o café acontece a mesma coisa. Maior produ- tor de café do mundo, o país sempre deu mais importância ao volume da safra do que à qualidade do grão. O primeiro passo para melhorar o padrão do café brasileiro foi dado em 1989. Naquele ano, a Associação Brasileira da Indústria de Café, a Abic, criou um selo que assegura a pureza do pó contido na embalagem. (Até ali, muitos torrefadores adicionavam pó de madeira e outras impurezas para ganhar no volume do pó de café.)
 


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"Isso foi importante, mas não suficiente para dar destaque internacional às marcas brasileiras", diz Nathan Herszkowicz, presidente do Sindicato da Indústria de Café do Estado de São Paulo. Agora será dado o segundo passo. Pela primeira vez, chegará aos supermercados um pó com garantia de qualidade e de procedência. É o café do cerrado mineiro, uma das melhores regiões para o cultivo do grão em todo o mundo. Entre os setenta produtores brasileiros já premiados num concurso promovido pela torrefadora italiana Illycaffé desde 1991, 52 (ou 74% do total) são do cerrado. O café com selo de procedência chegará ao mercado em novembro próximo e será produzido inicialmente por nove torrefadoras diferentes. Ele deverá custar 20% mais do que os produtos comuns.

Sem açúcar
O atestado de procedência dará ao consumidor a certeza de que esse café, independentemente da marca, terá algumas características definidas. O produto do cerrado mineiro tem sabor suave e aroma acentuado. Às vezes, chega a exalar um aroma achocolatado ou acaramelado. Como a umidade do ar é baixa na época da colheita da safra, o café do cerrado não fermenta depois de armazenado. Isso faz com que as características naturais do grão sejam preservadas por mais tempo. "A vantagem do café mais suave, como o do cerrado mineiro, é que muitas vezes ele nem precisa ser adoçado", diz Aldir Alves Teixeira, especialista em classificação de café, da Illycaffé.

Qualidade
Outras regiões do país produzem café de ótima qualidade. As principais regiões cultivam o grão do tipo arábica, que produz uma bebida mais suave. As condições do clima é que determinam as principais diferenças de características entre eles. O café do sul de Minas, por exemplo, é tão bom quanto o do cerrado, com a diferença de ter um grau mais elevado de acidez. Isso provoca uma sensação ligeiramente travada na boca, como acontece com os vinhos verdes. O da região mogiana, no norte de São Paulo, tem menos acidez do que o do sul de Minas, mas seu aroma é menos intenso. O Paraná produz um café menos encorpado, ou seja, o sabor permanece por menos tempo na boca. Por enquanto, as marcas brasileiras, com exceção de uma linha especial da Café do Ponto, não trazem classificação conforme a origem. A partir de agora, isso deve ficar mais comum. As principais marcas misturam em suas embalagens grãos de diferentes procedências. Nas prateleiras dos supermercados há café para todos os gostos (veja fichário). "O café nacional, de um modo geral, nada deixa a desejar em relação aos importados", diz o engenheiro José Osvaldo Amarante, estudioso de café, de São Paulo.

Aromas artificiais
A comparação com os importados faz sentido. O brasileiro sempre ouviu da própria indústria que os grãos de melhor qualidade eram destinados à exportação. Isso aconteceu por duas razões. A primeira é que o governo sempre teve interesse em estimular as vendas ao exterior, feitas em grandes quantidades. A outra razão era que o tabelamento de preços que vigorou até alguns anos atrás não estimulava as torrefações a investir em qualidade. "O mercado não dava a oportunidade ao brasileiro de tomar um bom café", diz David Nahum Neto, do Rio de Janeiro, secretário-geral da Abic. Enquanto isso, produtores de outros países, como a Colômbia e a Guatemala, investiam em suas marcas. Com o fim do tabelamento, as empresas brasileiras começaram a diversificar a produção. Algumas passaram a empacotar café sem cafeína. Outras adicionaram ao pó aromas artificiais de menta, amêndoa e alguns outros.

Preparo
Cada pessoa tem um modo de fazer o café. Alguns deixam o pó ferver junto com a água e jogam essa mistura no coador. Outros põem o pó no coador e despejam a água quente por cima. O uso de cafeteiras elétricas é cada vez mais freqüente. Os especialistas dão alguns conselhos a quem pretende tornar-se um apreciador da bebida. Conforme o Centro de Preparação de Café, mantido pelo Sindicato da Indústria de Café do Estado de São Paulo, o ideal é que se usem de cinco a seis colheres de sopa de pó para cada litro de água. Depois de aberto o pacote, o pó deve ser consumido em até dez dias. Após esse período, o aroma e o sabor começam a se dispersar. O pó não deve ser compactado no coador. "Aos primeiros sinais de fervura da água, desligue o fogo", diz a nutricionista Christiane Monteiro, professora do curso de preparação de café da Abic, no Rio de Janeiro. "A água muito quente pode cozinhar o pó e eliminar os aromas." Os mais puristas aconselham o uso da água mineral ou, na pior das hipóteses, filtrada. Isso impede que o sabor do cloro interfira no do café.

92 bilhões de xícaras de cafezinho por ano
Há duas variedades de café. O tipo arábica, originário do Oriente Médio, é cultivado em regiões com altitude acima de 800 metros e produz cafés com diferentes aromas e sabores. Já o robusta, vindo da África, tem pouco aroma e gosto

Existem no Brasil 2.300 marcas de café. Entre elas, 1.100 têm o selo de pureza da Associação Brasileira da Indústria de Café

A torrefadora União, com suas marcas (Pilão, União e Caboclo), a Melitta, a Café do Ponto e a Café Brasileiro são responsáveis por cerca de 30% do consumo no país

As 576.000 toneladas de café consumidas no Brasil neste ano são equivalentes a 92 bilhões de xícaras de cafezinho. Calcula-se que no ano 2.000 o consumo chegue a 720.000 toneladas, ou 115 bilhões de xícaras

Cada brasileiro consome, em média, 3,6 quilos de café por ano. Isso equivale a 576 xícaras, ou uma e meia por dia



Os grãos mais apreciados do mundo

Brasil
É um dos poucos países do mundo que cultivam todas as variedades de café. A arábica, plantada em Minas Gerais, São Paulo e Paraná, é a considerada mais nobre. A robusta, encontrada no Espírito Santo, é utilizada em misturas e na produção do café solúvel

Colômbia
Os grãos colombianos são colhidos a mão e proporcionam cafés pouco ácidos, saborosos e com forte aroma. Excelso, Medellín e Supremo estão entre as melhores marcas

Angola
O café produzido no país africano, do tipo robusta, é conhecido pelo aroma marcante e por ser pouco encorpado. Ao tomar uma xícara da bebida, tem-se a impressão de que o sabor vai embora rapidamente

Costa Rica
O rigor no cultivo e nas etapas de secagem, torrefação e moagem dos grãos resulta numa bebida encorpada e de aroma forte. Entre as marcas costariquenhas destacam-se Juan Vinas, Tres Ríos e Tarrazu

México
O aroma delicado é a principal característica do café mexicano. Feito a partir de grãos do tipo arábica, ele tem baixa acidez e não é muito encorpado. As melhores marcas são Huatusco, Coatepec, Chiapas e Margogype

Guatemala
O país centro-americano produz alguns dos cafés mais apreciados do mundo, a maioria do tipo arábica. O sabor do café é agradável e o aroma, seco, como os das marcas Antiqua e Huehuetenago