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A Vida Depois dos 100
A Vida Depois dos 100

30 de junho de 1999

Antes uma curiosidade, os centenários são o grupo que mais cresce no mundo

Até pouco tempo atrás, os cientistas acreditavam que as pessoas que atingissem o limite da vida dos seres humanos, estimado em 120 anos, não poderiam ser consideradas exatamente felizardas. Muito pelo contrário. Na visão médica, o destino dos indivíduos que ousassem aproximar-se dessa fronteira era passar o resto dos dias numa cama, sofrendo de doenças paralisantes como a depressão profunda e o mal de Alzheimer. Várias pesquisas recentes, porém, estão mudando completamente essa idéia. Por meio da análise de casos de pessoas centenárias, o principal laboratório utilizado pelos especialistas para estudar e compreender o fenômeno da longevidade, chegou-se à conclusão de que o envelhecimento não é necessariamente um processo de declínio radical da saúde. A maioria dos centenários estudados apresenta baixas taxas de incidência de doenças mentais, consome menos dinheiro do sistema de saúde em comparação com as pessoas mais novas, além de manter até o limite de sua existência uma qualidade de vida bastante aceitável. "Em vez do ditado 'quanto mais velho, pior', os centenários estão nos ensinando um novo conceito: 'quanto mais velho, mais saudável'.", afirma o geriatra Thomas Perls, autor do livro Vivendo até os 100, um dos mais completos estudos já publicados sobre o assunto.

Existem 135.000 pessoas centenárias no mundo. Cerca de 9.500 delas vivem no Brasil (veja quadro). Os centenários representam a faixa etária que cresce mais rapidamente no mundo hoje. Segundo um levantamento recente da ONU, a taxa de crescimento dessa fatia da população projetada para os próximos cinqüenta anos será de 1.530% - índice seis vezes maior do que o dos indivíduos entre 60 e 79 anos, por exemplo. Atualmente, a pessoa reconhecida como a mais velha do mundo é a americana Sarah Clark Knauss, com 117 anos. Ela nunca se preocupou com dietas especiais. Odeia vegetais e, até pouco tempo atrás, garantia consumir três tortas de chocolate por dia. Quando perguntada sobre o segredo que a levou a testemunhar eventos como o naufrágio do Titanic e a pioneira travessia de avião realizada por Charles Lindbergh sobre o Oceano Atlântico, ela responde: "Mantenha-se ocupado, trabalhe duro e não se preocupe com a idade".

Segundo os especialistas isso não basta. A longevidade tem um forte componente genético, dizem eles. Um estudo das famílias de idosos, realizado pelo Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston, nos Estados Unidos, detectou que os parentes de centenários possuem quatro vezes mais chance de chegar aos 90 anos de idade do que as pessoas com antepassados que morreram mais jovens. Alguns trabalhos recentes tentam identificar o gene da longevidade. Uma das linhas de pesquisa mais ambiciosas já conseguiu resultados surpreendentes ao dobrar o tempo de vida de ratos e moscas depois de pequenas modificações genéticas. Outros estudos procuram compreender melhor o papel do gene da enzima conversora de angiotensina, ECA, no corpo humano. Sua ação é bastante curiosa. Quanto mais ECA no organismo, maior o risco de alguém morrer de ataque cardíaco. Apesar disso, a incidência desse gene nos centenários é mais alta do que no restante da população. Os especialistas já formularam uma hipótese para essa aparente contradição. "É como se o gene tivesse um papel duplo", afirma Ivana da Cruz, do Instituto de Geriatria e Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. "Se o indivíduo ultrapassar a faixa de idade mais perigosa de incidência da doença, entre 40 e 60 anos, o gene passa a atuar em favor da longevidade."

Apesar das evidências genéticas, os fatores ambientais ainda têm um peso fundamental no processo de envelhecimento. Em todas as populações de idosos estudadas no mundo, constatou-se que esses indivíduos praticavam algum tipo de atividade física, tinham baixos níveis de stress e estavam bem integrados à comunidade local. Essa associação de vida saudável e características genéticas favoráveis produz resultados surpreendentes. As mulheres que concebem por volta dos 40 anos de idade, por exemplo, possuem quatro vezes mais chances de chegar aos 100 anos do que o restante da população. Nesse caso, a explicação poderia estar ligada ao estrógeno. A maternidade tardia é um sinal de que o ciclo de produção hormonal pode prolongar-se por mais tempo do que o normal. Os recentes estudos estão revisando até alguns conceitos arraigados sobre a incidência de doenças degenerativas na terceira idade. Antigamente, por exemplo, acreditava-se que 70% dos idosos sofreriam com o mal de Alzheimer. Um levantamento realizado com centenários demonstrou que esse índice era muito menor - 30% nessa faixa de idade. "O grande desafio agora é encontrar as chaves da longevidade, para que esses benefícios possam ser estendidos a todo o restante da população", afirma a geriatra Ivana da Cruz.

Os centenários brasileiros

São raros os estudos brasileiros que tentam entender o fenômeno da longevidade. Um dos poucos grupos que se dedicam a esse assunto encontra-se no Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUC do Rio Grande do Sul. Há quatro anos os especialistas fazem pesquisas no município gaúcho de Veranópolis, no interior do Estado. Lá está registrada a maior expectativa de vida do Brasil: 77,7 anos (contra 67,61 da média do país). Os resultados do trabalho confirmam até agora as principais teses sobre a longevidade. "Os idosos da cidade têm uma vida ativa, possuem histórico familiar de parentes que também chegaram a uma idade avançada e estão perfeitamente integrados à comunidade local", afirma Ivana da Cruz, uma das responsáveis pelo trabalho.

O agricultor José Bernardo Vieira transformou-se numa celebridade no lugar onde vive atualmente, a cidade de Ourinhos, no interior de São Paulo. No mês passado seu aniversário virou notícia na emissora de rádio local, não sem motivo: ele acabara de completar 111 anos. Existem brasileiros mais velhos, como a ex-escrava mineira Maria do Carmo Gerônimo, que possui idade estimada em 128 anos. Por falta de documentação, ela não é reconhecida como a campeã mundial da longevidade. Mas seu estado atual é triste. Depois de sofrer dois derrames cerebrais, em 1997, a anciã passa o dia numa cama, não fala e não se alimenta sozinha. O agricultor José Bernardo ultrapassou a barreira dos 100 em boa forma. Até pouco tempo atrás, ele acordava às 5 da manhã para cultivar hortaliças em seu sítio. Não usa óculos até hoje e nunca seguiu nenhuma dieta especial. Sua primeira internação num hospital aconteceu há poucas semanas, para a extração da próstata. A operação foi bem-sucedida e José Bernardo saiu andando do hospital. "Não tenho explicação, só Deus pode dizer por que cheguei tão longe" afirma ele.

Segundo o último censo, existem 9.500 pessoas nessa condição no país. As histórias de cada um desses centenários são sempre surpreendentes. A gaúcha Braulina Pereira da Costa completou 100 anos em março. Embora tenha problemas de audição e dificuldade para caminhar sozinha, pode-se dizer que ela chegou a essa idade num bom estado de saúde. Braulina não toma remédios e não tem nenhum tipo de doença. A pressão e os batimentos cardíacos são perfeitos.