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Sono Tranqüilo
Sono Tranqüilo

04 de novembro de 1998

Nova cirurgia promete reduzir o ronco sem dor

O ronco é um desconforto que afeta um quinto da população brasileira. No caso das pessoas casadas, o número dobra se entre as vítimas forem contabilizados maridos e mulheres obrigados a dormir em companhia dos roncadores. Até um ano atrás, só havia duas alternativas para amenizar o problema: dormir no sofá da sala para não incomodar tanto o parceiro ou enfrentar uma cirurgia tão dolorosa que acabava afugentando os possíveis pacientes. Em novembro passado, chegou ao Brasil uma nova técnica cirúrgica que promete reduzir ou eliminar o ronco sem dor alguma. A novidade chama-se somnoplastia, é oferecida em consultórios de São Paulo, Curitiba e Porto Alegre e custa cerca de 1.800 reais.

O ronco é causado pela flacidez do palato mole (o céu da boca) e da úvula (a campainha). Quando a pessoa respira de boca aberta durante o sono, essa região vibra em razão da passagem do ar, produzindo o ruído característico. A solução, portanto, é tornar mais firme o tecido da área. Isso é conseguido com aplicação de calor, através de uma pistola com radiofreqüência. O aquecimento quebra as proteínas, reduzindo o tamanho do palato e da úvula (veja quadro). A cirurgia dura menos de cinco minutos e é feita com anestesia local. "Em média, a somnoplastia reduz 70% do ronco, o que costuma ser suficiente para resolver o incômodo", afirma o médico Denilson Fomin, que trabalha com a nova técnica no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto e no Albert Einstein, de São Paulo.

"Problema social"

A nova cirurgia é recomendada para pessoas que roncam e para as que sofrem de apnéia em grau leve - uma doença que obstrui a respiração durante o sono e atinge cerca de 3% da população. Com o avanço da idade, o palato e a úvula ficam mais flácidos, mas algumas pessoas roncam por outras razões. A obesidade e o consumo de álcool e tranqüilizantes também podem aumentar o problema. Os roncadores, por não conseguir dormir bem, sentem-se cansados e sonolentos durante o dia e são mais propensos a doenças cardiovasculares e derrames. Além disso, incomodam seus parceiros. "O ronco é um problema físico que se torna social", diz Mercedes Maria Canesin, que passou por várias cirurgias.

A instrumentadora cirúrgica Dora Kremer, de 43 anos, submeteu-se à somnoplastia e diminuiu o ronco em 80%. Antes disso, chegou a pensar em construir um quarto isolado só para ela. "Só agora meu marido consegue dormir tranqüilo", conta. Dora pretende repetir a cirurgia para tentar reduzir ainda mais o incômodo. "Segundo estudos americanos, em alguns casos é aconselhável o paciente repetir a somnoplastia", afirma Marcos Mocelin, presidente da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia.

A Importância do Sono

É um total contra-senso o fato de que, num mundo em que cerca de 16 a 40% das pessoas em geral sofrem de insônia, haja aquelas que, iludidas pelos valores da sociedade industrial, esforçam-se por reduzir o número de horas de sono diário,. Com isso acreditam, provavelmente, que um corpo "treinado" para dormir menos nos permita ampliar o número de "horas úteis" do dia, mantendo o mesmo desempenho. Pura ilusão ou, mais provavelmente, uma boa dose de ignorância sobre a importância que o sono tem no funcionamento de nosso corpo e da nossa mente.

Dormir não é apenas uma necessidade de descanso mental e físico: durante o sono ocorrem vários processos metabólicos que, se alterados, podem afetar o equilíbrio de todo o organismo a curto, médio e, mesmo, a longo prazo. Estudos provam que quem dorme menos do que o necessário tem menor vigor físico, envelhece mais precocemente, está mais propenso a infecções, à obesidade, à hipertensão e ao diabetes .

Alguns fatos comprovados por pesquisas podem nos dar uma idéia da importância que tem o sono no nosso desempenho físico e mental. Por exemplo, num estudo realizado pela Universidade de Stanford, EUA, indivíduos que não dormiam há 19 horas foram submetidos a testes de atenção. Constatou-se que eles cometeram mais erros do que pessoas com 0,8 g de álcool no sangue - quantidade equivalente a três doses de uísque. Igualmente, tomografias computadorizadas do cérebro de jovens privados de sono mostram redução do metabolismo nas regiões frontais (responsáveis pela capacidade de planejar e de executar tarefas) e no cerebelo (responsável pela coordenação motora). Esse processo leva a dificuldades na capacidade de acumular conhecimento e alterações do humor, comprometendo a criatividade, a atenção, a memória e o equilíbrio.