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25 de fevereiro de 1998

O filtro solar não previne o pior câncer de pele mas continua imprescindível.
Pele, cabelos e olhos claros: chances seis vezes maiores de desenvolver
melanoma

Foi preciso uma década para que o brasileiro se convencesse dos efeitos deletérios do excesso de sol. Ninguém mais ousa se estirar à beira do mar ou da piscina sem antes lambuzar o corpo com filtro solar. O ritual melado tinha um bom motivo. Acreditava-se que pudesse evitar todos os males resultantes da perigosa exposição da pele ao sol por mais tempo do que o recomendado, como envelhecimento precoce e câncer de pele, entre os mais importantes. Na semana passada, durante o encontro anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência, cientistas do Centro de Câncer Sloan-Kettering, em Nova York, jogaram dúvida nessa crença, ao revelar que os protetores solares podem muito pouco contra o mais letal dos cânceres de pele, o melanoma. Cuidado, portanto.

A epidemiologista Marianne Berwick, chefe da equipe de pesquisadores, analisou dez pesquisas sobre a relação entre o uso das loções e a incidência do câncer. Em oito delas, notou a cientista, não há prova alguma do benefício dos filtros na prevenção de melanoma. A conclusão da doutora Berwick não equivale à condenação do uso do filtro solar. O produto continua a ser considerado muito útil contra as queimaduras de sol e contra dois outros tipos de câncer de pele. Mas o melanoma tem peculiaridades que fazem sua prevenção mais complicada.

Pintas

Sabe-se, por exemplo, que o melanoma pode acometer até pessoas que nunca tomem sol. "Ele se manifesta não apenas em regiões constantemente expostas ao sol, mas também em áreas do corpo protegidas da radiação ultravioleta, como as plantas dos pés e as nádegas", diz o dermatologista Sérgio Fonseca Tarlé, professor da PUC do Paraná. Depois, os médicos têm certeza de que esse tipo de neoplasia depende de fortes componentes genéticos. Famílias com um caso entre seus membros têm mais chances de apresentar a doença. Homens e mulheres de pele e cabelos claros, notou a médica Berwick, correm risco seis vezes maior de desenvolver o câncer. Outro dado é que a existência de pintas escuras na pele (não confundir com sardas) também aumenta a probabilidade de o melanoma aparecer. Um trabalho desenvolvido pela Universidade de Harvard, publicado no ano passado no Journal of the American Medical Association, a reputada revista científica da Associação Médica Americana, revela: uma pinta e basta apenas uma aumenta o perigo em doze vezes. "Noventa por cento dos casos de melanoma se desenvolvem a partir de pintas já existentes", reforça a dermatologista Clarisse Zaitz, professora da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Mesmo com tantos fatores independentes da exposição ou não ao sol, os médicos ainda acreditavam que o filtro solar ajudasse na prevenção dos melanomas. Isso se devia ao fato de se ter constatado que as pessoas mais suscetíveis ao câncer tinham outro ponto em comum. Em algum momento de sua vida tinham sofrido queimaduras de sol profundas. Foi o bastante para que se desenvolvesse a crença de que os filtros solares, já que protegem a pele contra essas agressões, pudessem também proteger contra o melanoma. Aí estava o problema.

Bronzeado seguro

Usar filtro solar é um hábito recente, do final da década de 80, que graças às campanhas de esclarecimento ganhou força rapidamente. Apesar disso, o número de casos de câncer de pele vem crescendo a cada ano. Em 1960, havia uma vítima de melanoma para cada 600 pessoas. Trinta anos depois, a proporção era de um para 105. No ano 2000, de acordo com estatísticas do Instituto Nacional do Câncer, do Ministério da Saúde, a relação no Brasil será de um para 75. "Só porque passam o protetor, muitos acham que estão seguros e se expõem ao sol indiscriminadamente", diz o dermatologista Fernando Augusto de Almeida, presidente do Grupo Brasileiro Multidisciplinar de Melanoma e professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo.

O nó da questão está no fato de a luz do sol não ser homogênea. Ela se compõe de radiações diferentes, que, combinadas, provocam uma série de efeitos no organismo. O raio ultravioleta de tipo A, por exemplo, acelera o envelhecimento das células, enquanto o ultravioleta de tipo B responde pelas queimaduras e pelo bronzeamento. Acreditava-se que os melanomas estivessem relacionados à exposição ao tipo B, e isso dava alento à idéia de que, em se barrando essa radiação, por tabela se estivesse prevenindo o câncer. Um trabalho do Laboratório Nacional de Brookhaven, nos Estados Unidos, lançou por terra essa idéia. Os pesquisadores mostraram que em 90% dos casos de melanoma, a radiação responsável é a de tipo A, que os filtros solares mais modernos só conseguem barrar em 50%. Está aí o motivo para que, mesmo se evitando as queimaduras, não se evite a tragédia do melanoma.

Apesar dos estudos sobre melanoma, os protetores solares são imprescindíveis. Sobretudo no Brasil, que, por se situar em região equatorial, está entre os países do mundo mais atingidos pela radiação solar. E mais. O brasileiro adora ficar estatelado na areia enquanto os raios de sol lhe douram a pele. Antes da chegada dos filtros, o verão era a época de pernas, barriga, ombros e rosto vermelhos para a maioria o corpo dolorido, inchado, coberto por bolhas. Não era raro ver rapazes e moças tomando banho de mar de camiseta, depois de se ter queimado excessivamente no dia anterior. Era a única proteção possível contra o sol. Hoje não mais. Existe o filtro solar para defender a pele, e todos o utilizam. Os fotoprotetores são armas poderosíssimas contra a nocividade do sol. Alguns chegam a absorver mais de 97% dos raios solares do tipo B. Preservam assim as células da pele das rugas precoces e da maioria dos cânceres de pele. A grande boa notícia trazida pelos protetores solares foi que os banhistas puderam prolongar sua estada na praia, reduzindo os riscos. O bronzeado ficou mais seguro. É só não abusar.