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O SUS que funciona
O SUS que funciona

11 de março de 1998

Um hospital no interior paulista mostra como fazer atendimento gratuito com qualidade

Todo dia, ambulâncias e ônibus fretados vindos de cidades próximas e até de outros Estados estacionam em frente do Hospital de Base de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Ali, a 450 quilômetros da capital paulista, acontecem cenas difíceis de ser observadas nos demais 7.000 hospitais brasileiros. Nenhum paciente volta para casa sem atendimento. Os casos mais simples são medicados e liberados em poucos minutos. Os mais graves passam pela UTI e depois são encaminhados às unidades específicas, dotadas de moderna tecnologia. O Hospital de Base dá mais de 90.000 consultas por mês e atende pacientes com os mais diversos quadros clínicos - de uma simples hipertensão a transplante de medula óssea. Outra surpresa: é um hospital particular que atende a maior parte das pessoas de graça, como hospital público, através do Sistema Único de Saúde, o tão criticado SUS. Apontado em todo o país como ineficiente e parte de um sistema público de saúde em estado falimentar, o SUS funciona muito bem em São José do Rio Preto. No Hospital de Base, é a fonte de 99% da receita - em apenas 1% dos casos o cliente paga a conta.

O Hospital de Base é um dos centros de excelência em medicina do interior do Brasil e chama a atenção por três motivos: pela tecnologia de ponta utilizada nos tratamentos, pelo volume de atendimento e pelo fato de se manter quase que exclusivamente com dinheiro do sistema público de saúde. Em número de consultas, iguala-se ao Hospital das Clínicas de São Paulo, o maior centro médico da América Latina, tido também como exemplo de boa administração hospitalar. Ocorre que o hospital de São José do Rio Preto tem muito menos recursos, funcionários e leitos que o HC paulistano. Ainda assim, consegue ser mais eficiente (veja quadro abaixo). O Hospital de Base também ganha na comparação com outros hospitais renomados, como o da Universidade de Campinas, Unicamp, considerado outro centro de excelência médica. Em Campinas, o custo médio de um paciente é de 89 reais para o hospital. Em São José do Rio Preto, é de 38 reais, menos da metade. Se os 9 bilhões de reais destinados a toda a rede de hospitais ligada ao SUS no ano passado tivessem sido utilizados com a mesma relação custo-benefício do hospital de São José do Rio Preto, haveria dinheiro suficiente para manter outros 215 centros médicos como ele no país. "É o melhor exemplo que conheço de trabalho com o SUS", afirma o médico Eleuses de Paiva, presidente da Associação Paulista de Medicina.

Controle total - O segredo do Hospital de Base é a boa administração. Há apenas sete anos, era igual à maioria dos outros hospitais brasileiros. Com equipamentos sucatados, afundava-se em dívidas trabalhistas e mal conseguia atender os pacientes do próprio município. A virada aconteceu quando um grupo de médicos, a maioria ex-alunos da Faculdade Regional de Medicina de São José do Rio Preto, assumiu a diretoria da Funfarme, uma fundação composta pelo hospital e pela faculdade, com um projeto de saneá-lo e investir em tecnologia. Hoje, o grupo fiscaliza tudo de perto - do custo da lavagem de roupa à compra de equipamentos. Para reduzir custos e aumentar a eficiência, aplicam a chamada "medicina baseada em evidências". Essa receita, adotada nos Estados Unidos e no Japão, consiste em seguir procedimentos padrão, que dão certo para a maior parte dos pacientes. Na maioria dos outros hospitais, por falta de critério de médicos e enfermeiros, costumam-se pedir exames e remessas de material que, muitas vezes, são desnecessários. No Hospital de Base, não. Lá, tudo é planejado antes. Se, por exemplo, num determinado caso sabe-se que três pacotes de gaze são suficientes, ninguém pode pedir dez sem prévia autorização. "Aqui, controlamos tudo, mas sempre com margem de segurança", diz o diretor Jorge Faris.

Outro trunfo do Hospital de Base é sua ligação com uma faculdade pública de medicina. Ele é, simultaneamente, um hospital privado e universitário. Isso lhe dá vantagens na obtenção de recursos do SUS. Por lei, todo hospital universitário tem direito a receber um adicional de 75% sobre a tabela de procedimentos. O argumento é que, além de tratar pacientes, esses hospitais têm gastos com atividades pedagógicas e, portanto, uma estrutura mais cara. O hospital de São José do Rio Preto também recebe mais do SUS por oferecer cirurgias e serviços mais sofisticados. Isso compensa as despesas com procedimentos básicos, pelos quais o SUS paga pouco. Um parto normal, por exemplo, considerado procedimento simples, tem custo para o hospital de 310 reais. O SUS paga por ele apenas 250. Por um transplante, em compensação, o SUS oferece mais de 30.000 reais - 100% mais do que a operação custa para o hospital. "Essa tabela de preços vale para todos os hospitais", explica o secretário de Saúde de São Paulo, José da Silva Guedes. "A diferença é que, em São José do Rio Preto, os recursos são mais bem administrados e a equipe é mais dedicada ao que faz."

Novas tecnologias - Tudo isso permite investir pesado em tecnologia. Recentemente foi inaugurada no Hospital de Base uma nova ala de emergência, com 87 leitos, vinte consultórios e quatro UTIs, considerada uma das mais modernas e bem equipadas do país. O sistema de hemodiálise tem 27 máquinas - o dobro da maioria dos hospitais - e utiliza tecnologia de última geração. Especializado também em neurocirurgia, o hospital é um dos poucos a realizar operações em epiléticos. Um centro de alta complexidade deve ficar pronto este mês e incluirá um núcleo de transplantes só existente hoje em hospitais europeus. Além de realizar transplantes de rim, córnea e medula óssea, esse centro passará a fazer também de fígado, coração e pulmão. Junto com a tecnologia, vêm também os médicos mais habilitados, atraídos pela possibilidade de fazer um bom trabalho. É o caso de Renato Ferreira, chefe do setor de transplantes. Com mestrado e doutorado e uma passagem de dois anos no maior centro de transplantes da Inglaterra, Ferreira decidiu se estabelecer em São José do Rio Preto depois de receber uma proposta para treinar uma equipe especializada em transplante de fígado.

A fama do hospital atrai não só profissionais de bom nível como pacientes de Estados distantes. A balconista Rosicler Michalczuk, de 32 anos, viajou 3.000 quilômetros de ônibus, de Cacoal, em Rondônia, até São José do Rio Preto, para colocar marcapasso. "Nunca fui tão bem atendida", diz. Enquanto aguardava o resultado dos exames, Rosicler já estava deitada em uma cama na UTI da emergência e sendo atendida por enfermeiros, apenas por precaução. "Quando voltar para casa vou fazer a maior propaganda", informa. A propaganda boca a boca dos pacientes ali bem atendidos tem sido uma das preocupações da diretoria do hospital. "Estamos tentando conscientizar as prefeituras vizinhas e de outros Estados para que os casos mais simples sejam tratados nas próprias cidades", afirma Jorge Faris. Em muitos municípios, lotam-se ônibus em romaria para o Hospital de Base. É o caso de Birigüi, a 130 quilômetros de São José do Rio Preto. Até o ano passado, a prefeitura costumava enviar dois ônibus de doentes por semana. "Hoje, estamos tentando controlar a situação", afirma o vice-prefeito Daniel Ferreira Júnior. "Até tínhamos condições de atender aqui mesmo os casos mais simples, mas os pacientes faziam questão de procurar o Hospital de Base." No Brasil, como se vê, um hospital gratuito que funciona se torna uma espécie de bom problema.