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Na Idade da Beleza
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08 de março de 2000

Luiza, Mara Lúcia, Fátima, Cristiana, Claudia e Luma passaram dos 35 anos. Como toda uma geração atual de mulheres que se cuidam com as mais modernas técnicas da estética e recursos da medicina, elas não têm a menor saudade do corpo que exibiam aos 20 anos. A palavra é delas:
- Fisicamente estou melhor do que antes e psicologicamente me sinto mais segura - atesta a ex-modelo e empresária Luiza Brunet, 37 anos, dois filhos, uma de 12 anos e outro de 9 meses.
- Aproveito a experiência dos 40 anos com um corpo de 20 - orgulha-se Fátima Simonsen, de 39 anos, mãe de duas meninas, a mais velha de 11 e a caçula de 8.

Até pouco tempo atrás, seria inimaginável ouvir uma mulher falar com tanto entusiasmo, sem uma ponta de dissimulação, sobre a chegada à idade madura. "Hoje, a mulher madura não faz mais parte do arquivo morto", diz o psiquiatra Claudio Novaes Soares, pesquisador da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Pode ser Luiza, pode ser Fátima, qualquer uma que chegue à idade delas, com a mesma jovialidade, é o espelho do avanço dos costumes e da ciência, que encaminhou soluções práticas para a proteção e o tratamento do corpo feminino. Foi preciso muito tempo para que a medicina desvendasse as peculiaridades do sexo feminino. Até o século XIX, do ponto de vista dos médicos, as mulheres não passavam de um par de ovários ligados a um ser humano, conforme a clássica definição do antropólogo e pesquisador alemão Rudolf Virchow (1821-1902), pioneiro do estudo das doenças pelo exame das células. Somente a partir dos anos 20 os cientistas explicaram de uma vez por todas como funciona o ciclo menstrual. Por muito tempo, acreditou-se que a ovulação acontecia durante a menstruação - tal qual ocorre entre os animais.

Com a derrubada definitiva dessa tese, abriu-se o caminho para o entendimento mais preciso da reprodução humana, que culminou no desenvolvimento da pílula anticoncepcional. A pílula mudou mais a vida das mulheres do que o sufrágio universal e a minissaia. Os estudiosos sustentam que foi só a partir dessa descoberta que a medicina bifurcou-se, criando o ramo especializado na fisiologia feminina, que começa agora a dar seus resultados mais evidentes. Desde então, as pesquisas científicas sobre o comportamento, a saúde e a psicologia feminina se multiplicaram. A possibilidade de envelhecer com beleza e saúde é uma conquista recente na história das mulheres. Com poucas exceções, as mães das jovens adultas de hoje eram consideradas aposentadas para a beleza e para o sexo ali pelos 40 anos. Por assim dizer, estavam fora do mercado a partir dessa faixa etária, muitas vezes bem antes. Os inimigos eram facilmente identificáveis. Pele do rosto ressecada ou estufada por bolsas de gordura. Flacidez nas nádegas e nas coxas, além de celulite em demasia. Peitos e braços amatronados (pelo volume excessivo ou pelo relaxamento dos tecidos). Isso era o que se via por fora. Por dentro também se processava um envelhecimento que, para os padrões de hoje, era prematuro.

Os métodos de diagnóstico e tratamento de doenças tipicamente femininas passaram a ocupar um papel central. Descobriu-se, como regra geral, que é preciso atuar precocemente sobre o organismo. Até o início dos anos 90, a mamografia, por exemplo, só era indicada depois dos 45 anos. "Hoje, o tempo ideal para o diagnóstico foi adiantado em dez anos", alerta o ginecologista João Carlos Mantese, de São Paulo. O acompanhamento de perda de massa óssea para a detecção precoce da osteoporose agora também foi antecipado: a partir dos 40 anos. O controle da pressão arterial e dos níveis de colesterol no sangue para prevenir doenças do coração também é uma nova arma em favor das mulheres. Até dez anos atrás, era preocupação majoritariamente masculina.

Rugas, flacidez, gordura localizada, celulite. Infertilidade, tensão pré-menstrual, osteoporose, câncer de mama e de útero, menopausa. Os fantasmas a ameaçar o bem-estar e a beleza femininas são muitos. As armas para retardar o envelhecimento e evitar as doenças típicas da idade estão atualmente ao alcance de um número maior de mulheres do que em qualquer outra época da história. As clínicas de estética espalham-se por todo o país oferecendo tratamentos refinados que antes eram caros e inacessíveis. O sonho dourado de toda mulher nos anos 70 e 80 era passar uma temporada na clínica da doutora Anna Aslan, uma misteriosa geriatra romena que atendia milionários, estrelas de cinema e chefes de Estado em seu xanadu em Bucareste. Uma semana na clínica Aslan, que chegou a ter no seu corpo médico o cirurgião sul-africano Christian Barnard, pioneiro dos transplantes de coração, custava 10 000 dólares. Só o tratamento. A hospedagem e a viagem aérea tornavam o custo de consultar-se na clínica um luxo acessível a poucos mortais.

Pois bem, a qualidade dos tratamentos que se pode obter atualmente em uma clínica estética de boa reputação e com médicos geriatras em qualquer grande cidade brasileira dá de goleada nos ungüentos à base de embrião de carneiro com que a médica romena lambuzava o rosto e o corpo dos poderosos no passado. O que não faltam são consumidoras. Em 1999, os cremes e as loções antienvelhecimento movimentaram 466 milhões de reais - um salto de quase 30% em relação ao ano anterior. Foram feitas mais de 300.000 operações plásticas nos hospitais brasileiros no mesmo período. Um crescimento de quase 500% em dez anos.

Os tratamentos e os cremes atuais são tão potentes que sua formulação saiu do reino da cosmética para o da medicina. O FDA, organismo governamental americano, que dá a garantia de segurança para remédios e alimentos vendidos nos Estados Unidos, passou recentemente a se ocupar de cosméticos. O FDA criou o Office of Women's Health, uma divisão inteira dedicada exclusivamente a cuidar de questões ligadas aos tratamentos médicos e estéticos oferecidos às mulheres. A Associação Médica das Mulheres Americanas reúne milhares de profissionais especialistas em questões femininas. Criada há dois anos, a entidade já concentra um enorme banco de dados de pesquisas sobre a mulher madura. "Exames rotineiros podem detectar doenças em seu estágio inicial. Dietas saudáveis e exercícios moderados e regulares podem prevenir problemas de saúde e melhorar a aparência e saúde das mulheres maduras", escreveu a médica Judith Ahronheim, num artigo sobre o atual estágio das pesquisas.

A formulação da frase acima é simples. Seus resultados práticos são formidáveis. "O importante é intercalar as atividades e diversificar os movimentos", ensina o personal trainer Mauro Guiselini, de São Paulo. Luiza Brunet que o diga. Anos atrás, ela imaginava que só conseguiria um corpo bem esculpido se abusasse da musculação. "Puxava ferro", como se diz no jargão das academias, diariamente - pesos de 50 quilos nos exercícios para as pernas. Hoje, não. Combina a musculação com aeróbica e alongamento. Depois de duas gestações, aos 37 anos, a silhueta dela é mais equilibrada e sua saúde mais sólida que no passado.

Ao engravidar pela primeira vez, em 1985, a empresária Cristiana Arcangeli foi alertada que fazer atividades físicas durante a gestação era um perigo. No máximo, uma sessão de ioga aqui, outra de relaxamento ali. Resultado: quando Bianca nasceu, a mãe estava 12 quilos acima do peso. Foram necessários seis meses para voltar à forma. No final da década de 90, pesquisadores americanos jogaram uma pá de cal no velho mito. A prática regular de ginástica durante a gravidez não é apenas hábito seguro, mas recomendado. Quatro horas semanais de atividade aeróbica, com moderação, evitam o parto prematuro ao aprimorar o tônus muscular e o sistema imunológico. Quem olha para Cristiana hoje não diz que há cinco meses ela deu à luz Isabela. A empresária está enxutérrima: barriga durinha, braços e pernas com músculos delineados. Como? Exercitando-se (moderadamente, é bom repetir) até o sétimo mês de gravidez. Hoje, aos 38 anos, sente-se, e parece realmente, mais bonita e mais bem disposta que aos 23.

As mulheres mudam o jeito de olhar para si mesmas. "Elas estão se sentindo mais atraentes e confiantes", diz o psicólogo Angelo Monesi. A libido masculina atinge o ápice por volta dos 20 anos. A feminina, por volta dos 35. Só isso já é uma vantagem espetacular para o campo das mulheres. "A revolução sexual, na década de 60, foi apenas o pontapé inicial na libertação feminina", afirma a psicóloga Amparo Caridade, da Universidade Católica de Pernambuco. "Agora é a hora da explosão da feminilidade." As jovens senhoras sabem disso. "Foi-se o tempo em que só a mulher jovem era bonita e atraente", diz a advogada carioca Claudia Slopper, 40 anos, um filho de 24 e outro de 21. Dona de curvas voluptuosas, Claudia vira o centro dos olhares masculinos por onde passa.

Com os avanços na criação de outras técnicas e no aperfeiçoamento dos instrumentos, as cirurgias estéticas tornaram-se menos invasivas e mais seguras. Em 1980, a lipoaspiração ampliou os limites da plástica. Passou a ser possível retocar cinturas, culotes e nádegas sem as cicatrizes deixadas pelas cirurgias tradicionais. Na época, a gordura ainda era aspirada com cânulas de grosso calibre - 1,2 centímetro de diâmetro. Os resultados, não raras vezes, pioravam a situação. Hoje, além de agulhas bem mais finas, surgiram outras técnicas, como a lipoaspiração ultra-sônica. As ondas emitidas pelo aparelho destroem as células gordurosas, reduzindo o sangramento e a agressão ao organismo do paciente. Novas próteses de silicone, texturizadas ou cobertas com esponja de poliuretano, reduzem o processo de cicatrização interno. "Com isso, o risco de endurecimento das mamas caiu de 40% para 4% dos casos", afirma Luiz Carlos Garcia, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Aos 35 anos, a ex-modelo e empresária Luma de Oliveira é prova esfuziante desses avanços. Em 1996, depois do nascimento do segundo filho, lipoaspirou as gordurinhas extras da barriga. No ano seguinte, afilou o nariz. No outro, avolumou os seios - o tamanho do sutiã foi do 38 para o 40. Além das intervenções cirúrgicas, há dois anos Luma decidiu suar de verdade. Três horas de ginástica por dia - corrida na esteira, musculação e 400 abdominais. Resultado: 58 quilos distribuídos em 1,74 metro de altura. Ela hoje está apenas 2 quilos acima do que apontava a balança quando começou a carreira, aos 16 anos. A simples aritmética nesse caso significa pouco. Uma das grandes descobertas em busca da silhueta alinhada é a certeza de que o peso em si não é um indicador muito confiável. Músculo pesa mais que gordura. Por isso, apesar de mais pesada, a Luma rainha da bateria da Viradouro deste Carnaval não tem aquela barriguinha saliente e molenga da Luma musa da Caprichosos de Pilares do Carnaval de 1990. Tem mais. As pernas bem esculpidas de agora dispensam as meias usadas para disfarçar a celulite e flacidez das pernas da Luma de 25 anos de idade. Naquela época ela tinha a juventude do lado dela, mas o arsenal médico e estético a favor da beleza ainda era um tanto arcaico.