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O Mosquito Venceu
O Mosquito Venceu

01 de abril de 1998

Transmissor da dengue, o Aedes aegypti assola o país

Desde o início do ano, 82.000 brasileiros de norte a sul do país caíram de cama prostrados por uma epidemia cujos sintomas incluem fortes dores de cabeça,febre alta e intermináveis crises de vômito. A doença não poupou ricos nem famosos: a cantora Fernanda Abreu passou a semana sem conseguir levantar-se da cama. O prefeito do Recife, Roberto Magalhães, teve de despachar sob as cobertas. O responsável por tamanho estrago mede menos que 7 milímetros de comprimento, tem pernas finas, expectativa de vida de apenas 75 dias e atende pelo nome de Aedes aegypti, o mosquito transmissor da dengue. A desproporção entre suas dimensões e o desastre que ele vem causando não é de todo ilógica: o inseto, apesar da aparência insignificante, é um titã da evolução das espécies, mestre na estratégia da sobrevivência e da propagação.


Adaptado à vida moderna, ele deposita seus ovos em qualquer cantinho que veja pela frente: pratos usados, vasos ou no interior de pneus velhos. Os ovos podem durar até um ano. E basta uma garoa para que eclodam imediatamente. Os inseticidas são incapazes de matá-los. Funcionam, no máximo contra o mosquito. Supostamente originário da África, onde sua proliferação não está controlada, o Aedes nunca teve dificuldades em se deslocar pelo mundo. O fato de hoje estar presente em pelo menos 100 países, segundo Hermann Schatzmayr, chefe do departamento de virologia do Instituto Oswaldo Cruz, tem estreita relação com o incremento do tráfego aéreo. Inimigo insidioso, o Aedes adora pegar carona em aviões. "Embora tenha autonomia de vôo de apenas 100 metros do local onde nasce, se encontra transporte vai para qualquer lugar", diz o cientista.

Plano de erradicação - Para desenvolver seus ovos, as fêmeas do Aedes aegypti precisam de uma proteína existente no sangue humano. É, portanto, o instinto de preservação da espécie que as leva ao ataque. Basta uma picada de mosquito contaminado e o vírus causador da doença se propaga. Por ano, o inseto contamina cerca de 100 milhões de pessoas e mata 24.000 em todo o mundo. No Brasil, a Região Sudeste é a mais atingida. Responde por 75% dos casos de dengue registrados neste ano. No Espírito Santo, mais de 25.000 pessoas contraíram a doença. Em Belo Horizonte, foram confirmados 20.000 casos nos últimos cinco meses. No Rio, 4.978 novos doentes surgiram desde janeiro, em São Paulo, 1.067. Até agora, uma pessoa morreu no país.

Schatzmayr, da Fiocruz, diz que a dengue é um problema mundial e não apenas brasileiro. A Venezuela teve recentemente uma epidemia da variação hemorrágica, a mais grave. A Costa Rica também enfrenta aumento no número de casos, e já há registros da doença até no sul dos Estados Unidos. No Brasil, o governo federal se debate na luta contra o Aedes por meio de campanhas de informação e dos 20.000 agentes federais da Fundação Nacional de Saúde que percorrem o país à cata do mosquito e seus esconderijos. Neste ano, o gasto previsto com o combate à doença é de 227 milhões de reais. Até agora, no entanto, seu transmissor continua livre, impune e levando a melhor. Na batalha entre o Homo sapiens e o Aedes aegypti, dez a zero para o mosquito.

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A dengue é um dos principais problemas de saúde pública no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que entre 50 a 100 milhões de pessoas se infectem anualmente, em mais de 100 países, de todos os continentes, exceto a Europa. Cerca de 550 mil doentes necessitam de hospitalização e 20 mil morrem em conseqüência da dengue.

Em nosso país, as condições socioambientais favoráveis à expansão do Aedes aegypti possibilitaram a dispersão do vetor desde sua reintrodução em 1976 e o avanço da doença. Essa reintrodução não conseguiu ser controlada com os métodos tradicionalmente empregados no combate às doenças transmitidas por vetores em nosso país e no continente. Programas essencialmente centrados no combate químico, com baixíssima ou mesmo nenhuma participação da comunidade, sem integração intersetorial e com pequena utilização do instrumental epidemiológico mostraram-se incapazes de conter um vetor com altíssima capacidade de adaptação ao novo ambiente criado pela urbanização acelerada e pelos novos hábitos. Nos primeiros seis meses deste ano, 84.535 pessoas tiveram dengue, enquanto que, em 2003, as notificações chegaram a 299.764.